A leitura, entre as ciências naturais e as ciências sociais

Jacques Fijalkow

Resumo


Seria ingênuo acreditar que os pesquisadores pronunciam-se de modo neutro e objetivo nos debates públicos sobre a leitura, baseando-se apenas em seus trabalhos científicos. Uma simples olhadela sobre os percursos desses pesquisadores revela, por exemplo, que os posicionamentos assumidos durante a crise desencadeada em 2005 pelo ministro Gilles de Robien deram quase sempre continuidade às suas posições quando de debates precedentes relativos à leitura. As raras exceções que confirmam a regra geral explicam-se facilmente por estratégias individuais ou, mais raramente, por autênticas evoluções pessoais. Tal continuidade mostra que os posicionamentos de pesquisadores e de outros atores, se devem, antes de mais nada, a juízos preconcebidos. Portanto, a invocação dos “resultados de pesquisas” – no estado atual dos conhecimentos, que comporta mais perguntas do que respostas – costuma servir apenas para ocultar preferências ideológicas incipientes sob um véu de virtude. De fato, essas preferências iniciais dependem, estreitamente, da importância do engajamento real de cada pesquisador no campo educativo, o qual pode ser medido pela existência de questões educacionais nos seus temas de pesquisa; por sua participação na elaboração de ferramentas destinadas ao ensino (manuais, ferramentas de avaliação); pela realização de ações conjuntas com parceiros da educação (pesquisa-ação, formação, avaliação); pela presença da sua assinatura em tal ou qual texto coletivo a respeito de questões relativas à educação. A verdade é que, se considerarmos critérios desse tipo, raros serão os pesquisadores cujos trabalhos indiquem um investimento autêntico nas questões de educação. Interessar-se pela leitura é uma coisa, interessar-se pela leitura na educação é outra.


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Leitura: Teoria & PráticaAssociação de Leitura do Brasil (ALB)
e-ISSN: 2317-0972 - ISSN da edição impressa: 0102-387X